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Sonho de menino

By pradowil 27 de setembro de 2023 No Comments 2 minutos de leitura

Ele tinha um sonho de menino. Mas, quando menino, nunca soube explicar muito bem o que era. Acordado, ele sonhava com aquilo. E chegou a sonhar também de olhos fechados, um sonho maravilhoso, a felicidade emanada por todos os cantos imaginários daquele pensamento vivaz, quase real, e que habitava, porém, somente o universo de sua imaginação.

O tempo foi passando, o menino cresceu, mas nunca perdeu aquele sonho de menino. Era agora um homem com sonhos tenros, quase infantis, sonhos que só seriam realidade na mente de alguém que aceita a inocência da bondade de uma relação humana sem amarras, sem intenções maquinadas ou estrategicamente pensadas. Um tolo, muitos diriam.

Os livros, a vida e os silêncios finalmente proporcionaram uma explicação plausível para que o sonho de menino fosse traduzido em palavras, havia justificativa para se esmiuçar como seria sonhar. Só que a dureza dos dias ásperos formaram a casca de proteção, à beira de cicatrizes, e então ninguém ousou mais chamá-lo de tolo. Morria-se um sonho em meio ao senhor da razão.

Quando tudo carecia de lógica, e quando todos deveriam explicação plausível para a fenomenologia dos fatos, o sonho de menino foi rememorado de uma maneira brusca, quase violenta, nos pensamentos de um homem já velho. Ele não acreditou ter ficado tanto tempo em lucidez extrema, décadas sem que a ludicidade tivesse qualquer tipo de espaço em uma mente extremamente vazia, cheia de razões.

A morte espreitava por todos os lados, era como num labirinto sem saída e sem entrada. Paralisado, o homem que um dia foi um menino e que um dia se permitiu sonhar, sentia-se mais tolo que nunca: ele não queria perder a esperança, mas foi tomado pelo pânico da insignificância de uma vida desbotada.

Parece que apenas um jovem neto acompanhou aquele homem em seu leito de morte. O diagnóstico era de senilidade, padeceu o homem que não alimentou um sonho de menino. Mas aquele neto, um menino também, fez questão de anotar as últimas frases, ainda que desencontradas, de um avô em despedida. Foi o único a descobrir exatamente qual seria o grande sonho de menino daquele homem velho. E passou a ter certeza: não haveria herança maior do que ter aprendido a sonhar.

*Texto publicado terça-feira (23) no Jornal do Povo

Crédito da imagem: Pixabay

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