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nunca mais amanheceu

By pradowil 20 de dezembro de 2023 No Comments 2 minutos de leitura

Um homem anda pela calçada depois de ver o filme mais triste da vida dele. há extintores de incêndio dilarecendo miolos, há estupro na cena do metrô, há um aspecto noir enlouquecedor, no filme. Mas há, agora, um homem triste e muito solitário gastando milímetros da borracha da sola do par de tênis. Ele estranhamente não sabe aonde ir, não imagina o que está fazendo, o seu corpo está sob efeito de algo que ele prefere chamar de torpor. Já não há amanhecer, e para aquele encontro com o entardecer, uma única certeza: o dia jamais vai amanhecer novamente para ele. É a última chance, o último caminho, o último gole. Ele não sabe bem o que quer, apenas que está triste, muito triste. Ele perambula pelas ruas de um bairro universitário e absolutamente ninguém o conhece. Os jovens bebem e transam, os jovens estão dentro de veículos, e transam, e bebem. Os jovens estão comendo hot dog, e soltam risadas estridentes. Os jovens também dancam, dentro e fora de uma vida real, de uma vida virtual. E tudo isso já não passa de um caminhar solitário, não há nenhum número na agenda do smartphone para ligar, as mensagens do 0800 já lhe fizeram companhia, e ele não tem ninguém, nunca teve, os habitantes que se diziam familiares nunca observaram que, meu deus do céu, ele é um menino triste. Meninos tristes se tornam homens tristes, homens que perambulam por aí e, ainda bem, não lidam bem com violência, com agressividades. Eles não querem incomodar uma mosca sequer. Eles precisam apenas andar, e de repente encontrar aquela garota que um dia compreendeu a verdadeira essência de um longo e solitário caminhar. Entendeu que não existem vilões, mas vítimas sim. Finalmente alguém havia olhado dentro dos olhos dele, e isso, pelo menos naquele instante, significou redenção. As pessoas não escutam, as pessoas apenas falam, e quando ele começa a falar, a pessoa interrompe, sem querer, mas provando que aquela narrativa dele não lhe diz respeito, a dor, o caminho e a provação alheia não interessam para quem precisa vomitar egocentricamente tudo aquilo que viveu, e então o falastrão retorna para casa satisfeito, pois fez um belo discurso, dominou a narrativa, e ele se sentiu como mordido por um vampiro, a sua alma e as suas energias já não estão lá, ele foi sugado, a espiral do dia a dia comprova o egoísmo e a traição de tudo, de todos. E ele caminha, e anoitece. E ele nunca mais encontrou aquela menina que olhou nos olhos dele e enxergou a alma dele, e ela falou: “é bonita, a sua alma, fique tranquilo, não existem vilões, e você pode até um dia quem sabe não ser uma vítima. É bonita, a sua alma, é bonita a sua intenção, eu admiro você, tente levar isso não como um elogio, mas como uma detecção de bondade, embora, eu sei, todos vão dizer que você errou, pecou, que você é menor. Vão dizer, muitas vezes sem palavras, apenas no olhar, mas vão dizer. Tente seguir em frente, apenas. A sua alma é bonita”. E então efetivamente nunca mais amanheceu. Era como se ele tivesse se perdido no meio da escuridão, quieto, com medo e muito só.

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