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‘Como o senhor fez para ficar rico?’

By pradowil 27 de setembro de 2023 No Comments 4 minutos de leitura

Como o senhor fez para ficar rico?

Um homem estava sentado no confortável banco super esportivo plus em couro Valcona do seu veículo, um Audi e-tron, carro elétrico da marca alemã avaliado em R$ 550 mil, ano 2022. Motor e ar-condicionado ligados, fazia 18ºC dentro do carro e 32ºC fora do veículo. Ele resistiu alguns segundos antes de abaixar o vidro após insistência de uma moça jovem e aparentemente vestida adequadamente, cabelo penteado e olhos grandes.

“Como o senhor fez para ficar rico?”, perguntou a moça, 20 e poucos anos, permitindo-se o atrevimento, prostrada em pé, ao lado do motorista daquele carro. Não era um assalto, ainda bem. E não há muitos crimes naquela hora do dia, logo após o almoço, ainda mais naquela região, perto do cartão-postal da boa cidade, lotada de carros importados em um eterno desfile automotivo pelas ruas e avenidas.

O homem necessitou de alguns segundos para se recompor e entender a pergunta da jovem. Inicialmente, teve receio, poderia ser alguém pedindo dinheiro – relação sempre muito desagrável de se compartilhar -, ou então uma destrambelhada qualquer perdida e perguntando onde fica a Av. Brasil ou então o shopping mais próximo. Não era nada disso. A moça tinha postura e tinha uma dúvida real na cabeça: “como ficar rico?”

“Senhor tá no céu”, respondeu, em tom descontraído, o dono do Audi, agora mais relaxado e se permitindo imaginar um possível interesse por parte daquela moça, ele se sentindo tão sozinho nos últimos dias, e a chegada do Natal o fazia lembrar da distância em que ele se permitiu viver das pessoas que um dia esboçaram nutrir qualquer tipo de sentimento por ele.

A moça não sorriu com a piadinha, manteve-se em silêncio e parecia não estar brincando com a pergunta jogada assim, de supetão, para um homem que aparentemente aguardava alguém descer de um dos apartamentos de um prédio luxuoso, com vista para um parque ambiental maravilhoso.

Desconcertado mais uma vez, o homem só conseguiu responder: “Eu não sou rico, rico é quem tem saúde”, o que poderia ser uma boa resposta não fosse um sorriso um tanto sarcástico esboçado por ele ao final da resposta, demonstrando para a moça que, sim, ele era rico, e que, não, ele não entraria em detalhes sobre os motivos pelos quais conquistara dinheiro suficiente para, por exemplo, andar pelas ruas da cidade com um Audi e-tron que custa mais de meio milhão de reais.

A moça se despediu educadamente do homem rico, que teve tempo, pelo menos, para indagar: “por que escolheu logo a mim para perguntar esse tipo de coisa, menina?” Ela respondeu, demonstrando pressa em ir embora, pois notou que uma senhorita muito arrumada, talvez filha daquele senhor, estava prestes a chegar ao veículo.

“Foi a primeira vez que eu vi um carro desta cor e a primeira vez que eu vi um carro sem retrovisor”, disse ela. A cor em questão tratava-se de um destacável azul Antigua e, naquele veículo, retrovisores tradicionais foram trocados por um sistema de câmera em que as imagens são processadas digitalmente e exibidas nos monitores internos laterais de sete polegadas.

E continuou: “A mim me pareceu carro de rico por conta destes diferenciais, mas confesso não ser especialista em veículos, me perdoe pela chateação, é que me interesso muito pelo tema da desigualdade social latente que há em nosso País, eu ainda não consigo entender tanta discrepância. Mas, um dia, isso tudo vai mudar, e saiba que não estou julgando o senhor, sua história ou suas conquistas. Eu apenas realmente quero entender como um ser humano se torna tão rico enquanto milhões de outros seres humanos vivem na extrema pobreza”, discorreu a moça de olhos grandes, antes de virar as costas e partir.

Na outra esquina, estava novamente ela indagando outro homem, desta vez um jovem com aparência de velho que fuçava folhas secas, máscaras usadas e outros resíduos no meio-fio, provavelmente em busca de produtos recicláveis.

“Como o senhor fez para ficar tão pobre?”, foi a pergunta dela desferida no exato momento em que um silencioso carro elétrico passava ao lado deles. “Tem doido pra tudo”, disparou o motorista para sua companheira sentada ao lado, dentro do veículo. Mas, estranhamente, desta vez ele não riu.

*Texto publicado nesta terça-feira, 14, no Jornal do Povo

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